Uma coleção de erros: Retrato do Artista Quando Jovem, de James Joyce, por José Geraldo Vieira

Faz pouco mais de dois anos que comecei a aprender a ler direito. Antes, eu lia literatura desprezando os detalhes, procurando no enredo – e apenas no enredo – uma espécie de prazer emocional como o que sentimos assistindo a um filme de suspense policial, ou àquelas comédias românticas “água-com-açúcar”. Com a orientação do professor Francisco Escorsim, aprendi a fazer uma leitura mais atenta, utilizando a imaginação de modo a vivenciar a história, a entrar mesmo na pele dos personagens, terminando então a leitura com uma experiência adquirida, e não apenas com aquele prazer da tensão resolvida, do final feliz.

Mas, como eu disse, faz pouco tempo que comecei essa reeducação e, assim, ainda preciso fazer um bom esforço para ler corretamente, principalmente trechos mais complicados, cuja decifração às vezes me toma algum tempo. Quando o livro que estou lendo é uma tradução, uma olhada no texto original normalmente clarifica o sentido das frases mais difíceis. Acontece que, fazendo isso, às vezes acabo encontrando problemas na tradução. Foi assim que descobri a mutilação no “Lord Jim” de Mário Quintana e foi assim, também, que me deparei com vários erros na versão feita por José Geraldo Vieira de “Retrato do Artista Quando Jovem”, de James Joyce.

Devo dizer que a leitura desse livro me foi um tanto indigesta e é por isso que vou renunciar, pelo menos por enquanto, ao meu intuito inicial, que era comparar todas as suas traduções brasileiras, o que me obrigaria a conviver mais algum tempo com — perdoem-me os fãs — o mala do Joyce. Vou então apenas listar aqui alguns dos erros que encontrei, sugerindo correções pontuais, tentando manter a estrutura e os vocábulos utilizados por José Geraldo Vieira, na medida do possível. Esclareço que considerei apenas erros flagrantes de tradução, que modificam o significado de um termo ou de uma frase. As indicações de páginas referem-se à edição de 1998, das editoras Ediouro e Publifolha.


 

Capítulo 2

Original: “For him there was nothing amusing in a girl’s interest and regard.”

José Geraldo Vieira: p. 82: “Para ele isso não era gracejo que interessasse e dissesse respeito a uma jovem.”

Correção: “Para ele não havia nada de engraçado no interesse e na consideração de uma jovem.”


O: “The growth and knowledge of two years of boyhood stood between then and now, forbidding such an outlet…”

JGV: p. 82: “O crescimento e o conhecimento de dois anos de infância erguiam-se entre eles e, agora, proibindo tal solução…”

C: “O crescimento e o conhecimento de dois anos de infância erguiam-se entre aquela época e agora, proibindo tal solução…”


O: “He knew, however, that his father’s property was going to be sold by auction, and in the manner of his own dispossession he felt the world give the lie rudely to his phantasy.”

JGV: p. 92: “Sabia, entretanto, que as propriedades do pai iam ser vendidas em leilão, e, no fato dessa privação de posse, sentia o mundo enganar-lhe rudemente a fantasia.”

C: “Sabia, entretanto, que as propriedades do pai iam ser vendidas em leilão, e, no fato dessa privação de posse, sentia o mundo desenganar-lhe rudemente a fantasia.”


O: “His monstrous reveries came thronging into his memory. They too had sprung up before him, suddenly and furiously, out of mere words. He had soon given in to them and allowed them to sweep across and abase his intellect, wondering always where they came from, from what den of monstrous images, and always weak and humble towards others, restless and sickened of himself when they had swept over him.

JGV: p. 95: “Seus monstruosos pesadelos voltaram, amontoando-se em sua memória, e eram bem mais do que meras palavras. Dera-lhes incontinente entrada e lhes permitira vasculharem e aviltarem o seu intelecto, sem que soubesse donde tinham vindo, de qual antro de monstruosas imagens, e sempre frágeis, e humildes para com os outros, inquietando-o e maltratando-o ao se apoderarem dele.”

C: “Seus monstruosos pesadelos voltaram, amontoando-se em sua memória. Eles também haviam brotado, súbita e furiosamente, de meras palavras. Dera-lhes incontinente entrada e lhes permitira vasculharem e aviltarem o seu intelecto, sem que soubesse donde tinham vindo, de qual antro de monstruosas imagens, e sempre frágil, e humilde para com os outros, inquieto e enojado de si mesmo depois que eles o haviam assaltado.”


O: “Nothing moved him or spoke to him from the real world unless he heard in it an echo of the infuriated cries within him.

JGV: p. 98: “Nada o movia ou lhe falava do mundo real a não ser quando um eco de gritos enfurecidos clamava dentro dele.

C: “Nada o movia ou lhe falava do mundo real a não ser que ouvisse um eco dos gritos enfurecidos que clamavam dentro dele.


O: For a swift season of merrymaking the money of his prizes ran through Stephen’s fingers.”

JGV: p. 103: “Para uma época de festividades assim rápidas, o dinheiro dos prêmios de Stephen lhe escorreu por entre os dedos.”

C: Durante uma rápida temporada de festividades, o dinheiro dos prêmios de Stephen lhe escorreu por entre os dedos.”


O: “Such moments passed and the wasting fires of lust sprang up again. The verses passed from his lips and the inarticulate cries and the unspoken brutal words rushed forth from his brain to force a passage.”

JGV: p. 105: “Tais momentos passavam, e os devastadores fogos da cobiça pulavam novamente. Versos lhe saíam dos lábios; gritos inarticulados e palavras brutais não proferidas investiam do seu cérebro para forçarem passagem.”

C: “Tais momentos passavam, e os devastadores fogos da luxúria pulavam novamente. Os versos lhe abandonavam os lábios; gritos inarticulados e palavras brutais não proferidas investiam do seu cérebro para forçarem passagem.”


O: “He walked onward, dismayed, wondering whether he had strayed into the quarter of the Jews.”

JGV: p. 106: “Prosseguia para diante sempre, impávido, perguntando se se extraviara no bairro dos judeus.”

C: “Prosseguia para diante sempre, desalentado, perguntando se se extraviara no bairro dos judeus.”


 

Capítulo 3

O: “From the evil seed of lust all other deadly sins had sprung forth…”

JGV: p. 112: “Da má semente da ambição todos os outros pecados mortais tinham saltado…”

C: “Da má semente da luxúria todos os outros pecados mortais tinham saltado…”


O: “Our earthly fire also consumes more or less rapidly according as the object which it attacks is more or less combustible, so that human ingenuity has even succeeded in inventing chemical preparations to check or frustrate its action.”

JGV: p. 128: “O nosso fogo terrestre, outrossim, se consome mais ou menos rapidamente, conforme o objeto que ele ataca for mais ou menos combustível, a ponto de a ingenuidade humana ter-se sempre entregado a inventar preparações químicas para garantir ou frustrar a sua ação.”

C: “O nosso fogo terrestre, outrossim, se consome mais ou menos rapidamente, conforme o objeto que ele ataca for mais ou menos combustível, a ponto de a engenhosidade humana ter-se sempre entregado a inventar preparações químicas para garantir ou frustrar a sua ação.”


O: “His hands were cold and damp and his limbs ached with chill.”

JGV: p. 144: “As suas mãos estavam frias e úmidas e os seus lábios doíam de frio.”

C: “As suas mãos estavam frias e úmidas e os seus membros doíam de frio.”


 

Capítulo 4

O: “It needed an immense effort of his will to master the impulse which urged him to give outlet to such irritation.”

JGV: p. 160: “Precisava dum grande esforço de vontade para dominar o impulso que o impelia, antes de se livrar de tal irritação.”

C: “Precisava dum grande esforço de vontade para dominar o impulso que o impelia a dar vazão a tal irritação.”


O: “Yet her mistrust pricked him more keenly than his father’s pride and he thought coldly how he had watched the faith which was fading down in his soul ageing and strengthening in her eyes. A dim antagonism gathered force within him and darkened his mind as a cloud against her disloyalty and when it passed, cloud-like, leaving his mind serene and dutiful towards her again, he was made aware dimly and without regret of a first noiseless sundering of their lives.”

JGV: p. 173: “Todavia a desconfiança dela amolava-o mais do que o orgulho paterno; e pensava friamente como observava a fé ir agonizando em sua alma de filho envelhecido e se ir fortalecendo nos olhos maternais dela. Um sombrio antagonismo ganhava força dentro dele e escurecia o seu espírito como uma nuvem contra a relutância dela; e quando isso passava, como toda nuvem que se esvai, deixando o seu espírito sereno e cheio de dúvidas para com ela, de novo se certificava sombriamente e sem ressentimento da primeira e tácita separação de suas vidas.”

C: “Todavia a desconfiança dela amolava-o mais do que o orgulho paterno; e pensava friamente como observara a fé que agonizava em sua alma de filho ir envelhecendo e se fortalecendo nos olhos maternais dela. Um sombrio antagonismo ganhava força dentro dele e escurecia o seu espírito como uma nuvem contra a relutância dela; e quando isso passava, como toda nuvem que se esvai, deixando o seu espírito sereno e obediente a ela de novo, se certificava sombriamente e sem ressentimento da primeira e tácita separação de suas vidas.”


 

Capítulo 5

O: “Nay, his very soul had waxed old in that service without growing towards light and beauty or spreading abroad a sweet odour of her sanctity—a mortified will no more responsive to the thrill of its obedience than was to the thrill of love or combat his ageing body, spare and sinewy, greyed with a silver-pointed down.”

JGV: p. 195: “Não só, até mesmo a sua alma se tornara velha naquele serviço, sem ter crescido para a luz e para a beleza e sem ter expandido para fora de si um doce odor de santidade — uma vontade mortificada não correspondendo mais à emoção da sua obediência do que à emoção do amor ou ao combate do seu corpo envelhecido, poupada e robusta, algo grisalha com uma penugem discretamente prateada.”

C: “Não só, até mesmo a sua alma se tornara velha naquele serviço, sem ter crescido para a luz e para a beleza e sem ter expandido para fora de si um doce odor de santidade — uma vontade mortificada não correspondendo mais à emoção da sua obediência do que correspondia à emoção do amor ou do combate o seu corpo envelhecido, poupada e robusta, algo grisalha com uma penugem discretamente prateada.”


O: “First you must take your degree.”

JGV: p. 200: “Primeiro que tudo deve uma pessoa tomar a sua posição.”

C: “Primeiro que tudo deve uma pessoa se formar.”


O: “It seemed a limbo of painless patient consciousness through which souls of mathematicians might wander, projecting long slender fabrics from plane to plane of ever rarer and paler twilight…”

JGV: p. 202: “Parecia um limbo de consciência paciente sem sofrimento através do qual as almas dos matemáticos podiam vagabundear, projetando longas fábricas esguias dum plano a outro plano de crepúsculo sempre mais raro e mais pálido…”

C: “Parecia um limbo de consciência paciente sem sofrimento através do qual as almas dos matemáticos podiam vagabundear, projetando longos tecidos esguios dum plano a outro plano de crepúsculo sempre mais raro e mais pálido…”


O: “He had written verses for her again after ten years.”

JGV: p. 235: “Dera em escrever versos para ela, havia já dez anos.”

C: “Dera em escrever versos para ela novamente, após dez anos.”


 

Dúvidas, críticas, sugestões? Você é fã de James Joyce e quer me xingar? Fique à vontade para deixar um comentário aí embaixo!

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7 comentários em “Uma coleção de erros: Retrato do Artista Quando Jovem, de James Joyce, por José Geraldo Vieira

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  1. É, meu caro, é isso mesmo! Não é só porque alguém é um grande autor que será necessariamente um bom tradutor.
    Como sugestão para posts futuros, que tal uma comparação entre traduções de clássicos gregos, como a Ilíada e a Odisseia, ou então de obras de Shakespeare?
    Parabéns pelo excelente blog! Um abraço!

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    1. É verdade, Mateus. Esse pessoal muitas vezes traduzia só porque precisava do dinheiro e sob pressão pra entregar rápido. Acabavam saindo coisas assim.
      Obrigado pelas sugestões! Já estão nos planos, mas acho que ainda me sinto um pouco intimidado por esses gigantes, hehehe…
      Abraço!

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    1. Obrigado, Fabio! Na verdade não é bem leitura crítica, é um deixar-se levar, usando a chamada “suspension of disbelief” e a imaginação pra entrar mesmo na pele do personagem e vivenciar a história. Não sei se consegui explicar. Se tiver interesse, sugiro que acompanhe o prof. Francisco Escorsim, o link da página dele no Facebook está no texto.
      Abraço!

      Curtido por 1 pessoa

  2. Grato por apontar esses erros crassos! Alguns, eu havia notado… Não sei como alguém que supostamente conhece inglês comete erros tão horriveis! A Editora nem liga, não revisa…

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