Dom Quixote, de Miguel de Cervantes – Traduções comparadas, 2ª parte

Continuando com o cotejo das traduções de “Dom Quixote”, trago agora um trecho do capítulo XXV muito bom para verificarmos qual tradutor melhor reproduz o ritmo do texto original.

Se ainda não leu a primeira parte desta comparação, leia aqui.

Livro I, capítulo XXV

LivICapXXV_Original_InstitutoCervantes
Texto original
LivICapXXV_ViscondesCastilho
Tradução Castilho, Azevedo e Chagas
LivICapXXV_AndradeAmado
Tradução Andrade e Amado

LivICapXXV_Molina_01

Tradução Molina

Tradução Molina
LivICapXXV_Ssó

Tradução Ssó
  • Nesta segunda parte das comparações de “Dom Quixote” e nas seguintes (ainda não sei quantas serão, talvez mais uma ou duas), vou utilizar como texto original a edição de 1998 do Instituto Cervantes e da editora Crítica de Barcelona, dirigida por Francisco Rico (disponível aqui). Das quatro traduções que estamos analisando, apenas as de Molina e Ssó mencionam o texto-base adotado: ambas utilizam edições dirigidas por Francisco Rico (apesar de não serem da mesma editora). Mesmo não sendo exatamente a utilizada nas traduções, essa edição do Instituto Cervantes assemelha-se mais a elas do que aquela que eu usei no post anterior (Editorial San Martin, Madrid, 1992), e por isso resolvi trocar.
  • Para falarmos de ritmo temos que falar de pontuação, e com isso nos deparamos com uma questão semelhante àquela que já mencionei na 1ª parte desta comparação: da mesma forma que a divisão de parágrafos, a pontuação do texto varia de edição para edição, uma vez que Cervantes a ignorou quase totalmente em seus manuscritos, considerando talvez que ela fosse de responsabilidade do impressor. Há, portanto, algumas variações nesse sentido, o que pode acabar se refletindo nas traduções.
  • Não adianta: para saber se um texto tem um bom ritmo, se soa bem, é preciso lê-lo, de preferência em voz alta, ou pelo menos imaginando os sons. Então, se você pulou as imagens dos livros aí em cima e veio direto aqui para os comentários, faça o favor de voltar lá e ler.
  • Tanto Dom Quixote como Sancho Pança, no diálogo contido neste trecho, falam de modo contínuo, ininterrupto, encadeando as frases quase sem fazer pausas. Eu sei que falei acima que a pontuação pode variar de acordo com a edição, mas independentemente disso, os y (e) e os que no início de várias frases dão a impressão de continuidade, de ligação, entre elas. A meu ver, quem melhor reproduz esse ritmo é Molina, enquanto que Andrade e Amado o destroem. Considero intermediárias nesse sentido as outras duas traduções.
  • Fazendo esta comparação, a primeira que faço entre traduções de um livro escrito em espanhol, percebi que me agrada mais quando elas acompanham de perto o texto original. A grande semelhança entre o português e o espanhol permite que uma versão mais literal não soe esquisita, como acontece quando o original é em inglês. Veja, por exemplo, as traduções da frase “y asegúrote que no dirás tú tantas cuantas yo pienso hacer”:
    • Castilho, Azevedo e Chagas: suprimiram este trecho
    • Andrade e Amado: “Asseguro-te que, mesmo assim, não chegarás a contar todas as que pretendo fazer.”
    • Molina: “e te asseguro que não dirás tu tantas quantas eu penso fazer.”
    • Ssó: “e te garanto que não inventarás tantas quantas penso cometer.”

A tradução literal de Molina reproduz fielmente o significado da frase original e não causa estranheza aos falantes da língua portuguesa. O que me leva a pensar por que motivo os outros tradutores não fizeram o mesmo, já que, apesar de não alterar o sentido geral da frase, a substituição de alguns termos (por exemplo: tantas por todas, em Andrade e Amado; dirás por inventarás, em Ssó) a modifica sutilmente.


Por hoje é isso. Sugestões, críticas, dúvidas, comentários — deixe uma mensagem aí embaixo, ou me contate no Facebook: facebook.com/luizfeliperibeiro. Para receber por e-mail avisos de novas postagens, cadastre-se no campo mais abaixo. Logo volto com mais “Dom Quixote”.


Terceira parte desta comparação: Dom Quixote, de Miguel de Cervantes – Traduções comparadas, 3ª parte

18 comentários em “Dom Quixote, de Miguel de Cervantes – Traduções comparadas, 2ª parte

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    1. Eu tenho a do Ssó e a do Molina, e estou querendo me desfazer de uma delas e doar para a biblioteca de onde dou aula, para que os alunos possam ler. Mas ainda não decidi com qual ficarei e qual doarei.

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